Autópsia da Cachoeira do Escorrega

 

Por Joaquim Moura                                                  

 

Analisamos a foto a seguir e chegamos a uma conclusão e algumas dúvidas:

 

Número total de visitantes = 179 pessoas

 

 

Conclusão:

A foto confirma as nossas piores preocupações ligadas à supervisitação crescente nos atrativos naturais da região e à consequente degradação do nosso patrimônio - nosso e das gerações futuras, coitadas.
Computadas todas as pessoas que se veem na foto, chegamos a 180 visitantes em apenas um trecho das margens da cachoeira. A foto só cobre o trecho à direita do/a fotógrafo/a (não conseguimos identificar a autoria), na direção rio abaixo. A partir dessa amostragem, podemos imaginar cerca de 500 a 600 pessoas se acotovelando na área, naquela manhã do domingo de Carnaval de 2012. Programão...
Certamente tal número de pessoas em área tão exígua e frágil é insuportável e até impossível, o que dá à foto esse sabor surrealista.

 

Dúvidas:

Quantas pessoas mais haveria bem em frente ao fotógrafo (com relação ao leito do rio), e quantas ainda à sua esquerda, rio acima? E as que já tinham ido embora; e as que ainda estavam chegando?


Quantas pessoas cabem no Escorrega em um domingo de sol, sem que os visitantes se sintam logrados? E em um feriadão? Mil pessoas? Duas mil? A quantos carros corresponde tal público? Onde estacionar tamanha lataria, no meio da natureza? Já encomendaram os banheiros químicos?

E o que estará acontecendo nas outras cachoeiras da região, no Poção da Maromba, na Santa Clara?

Quanto tempo levará para que a natureza fuja para longe de tamanho estresse e desrespeito? Qual será o impacto no ecossistema após algumas décadas ou séculos? Qual o valor do ingresso a ser cobrado pelo Parque Nacional de Itatiaia (que adquiriu recentemente a área da cachoeira), de modo a impedir tal absurdo?

 

Como chegamos ao número total de visitantes na foto?

Fragmentamos a fotografia e realizamos a contagem de pessoas em cada fragmento:

 

 

 

 

 

 

 

    

Propaganda enganosa ou - Pena que essa foto não tenha trilha sonora’

 

A RJ-163 não é nem «PIONEIRA»

Como todos sabem, as primeiras estradas-parque brasileiras foram criadas em São Paulo (Itu, 1996; e Guararu, 2002), e até hoje a RJ-163 não se diferenciou em nada de uma rodovia comum, para posar assim de «estrada parque» (por que eles esquecem sempre do hífen?). ‘Estrada-parque RJ-163' por quê? Se é por causa da riqueza paisagística, nesse aspecto a estrada antes era até mais bonita, primeva e luxuriante... E sem essa predominância de bicho-gente.

 

Nem se trata de «ECOTURISMO»

Que nos perdoem o INEA, a Seobras, o Prodetur etc., mas essa tendência crowdy que a foto registra - e que já vai predominando na região - não tem nada a ver com ecoturismo, mas sim com turismo antiecológico e até antiturístico.

 

A cachoeira do Escorrega de nosso dia a dia.

A cachoeira do Escorrega que dá prazer de visitar, usufruir e frequentar.